A Cultura Hacker

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A origem do termo hacker se deu entre as décadas de 50 e 60 no meio acadêmico. Alunos do renomado Massachussets Institute of Technology (MIT) naquela época iniciaram a utilização do computador da universidade com a simples intenção de desenvolver conhecimento sobre aquele equipamento. Mas por questões de restrições de uso do computador e com objetivos de poderem utilizar esse equipamento de forma mais livre, fazendo experimentações e buscando alternativas de aplicação, os aluno se organizavam e se programavam para terem acesso ao equipamento em horários onde o controle era menor e menos restrições pudessem ser impostas, que geralmente era de madrugada.

O primeiro grupo hacker conhecido foi o Tech Model Railroad Club (TMRC) fundado por Peter Samsom e seus amigos interessados em ferreomodelismo. O grupo formado motivado pela diversão tinham interesse tanto no ferreomodelismo quanto na utilização de computadores para controlar os modelos desenvolvidos por eles. O termo hacker foi concebido no TMRC onde cada projeto desenvolvido por um membro sem objetivos específicos e feito por pura diversão era chamado de “hack”, denominando-se assim seu construtor de “hacker”.

Muitos personagens daí em diante tiveram grande importância no reforço do nome criado, tornando a busca do conhecimento e sua aplicação prática para a resolução de um problema em novas soluções para melhoria da qualidade de vida. O termo hacking foi crescendo e tomando força. Desde a era da fundação do TMRC, passando pelo MIT, Berkeley, Stanford, criação do Homebrew Computer Club, laboratórios PARC da Xerox, etc., os personagens que tiveram alguma participação nestes fatos históricos no mundo da tecnologia, são considerados os primeiros hackers, não por autodenominação, mas por serem “eleitos” como tal.

Hacker não é título profissional, não tem diploma ou curso regular para formação, apesar de muitas empresas oportunamente aproveitarem o termo “em alta” para “comercializá-lo” como um produto. Ser hacker tem mais haver com comportamento do que com profissão. Posso sugerir felizmente que você pode ou não levar um estilo de vida hacker. Com tudo isso entendo e formo um conceito pessoal do termo hacker, que classifica pessoas que fazem “hacks”, por meio do conhecimento adquirido e com objetivo de resolver problemas, criando, construindo ou modificando coisas de uma forma prazerosa, quase como um hobby. O conhecimento adquirido não é de propriedade de ninguém e sempre deve ser compartilhado, pois foi composto com pedaços de outros conhecimentos adquiridos de outras fontes, que também compartilharam de alguma forma.

A sociedade de modo geral por desconhecimento da origem histórica, conservadorismo ou sensacionalismo atribui todo tipo de crime cibernético ao “hacker”, não o diferenciando do “cracker”, que opta por servir o “lado negro da força”. O cracker invade computadores, sabota sistemas e rouba dados. O livre arbítrio faz parte do ser humano e o conhecimento pode ser usado para o bem ou para o mal. O “hackerismo” também é citado como sinônimo de conhecimento ligado às invasões de computadores ou capacidade para evitar tal crime. Os especialistas com conhecimentos técnicos para realizarem tal proezas são referenciados como hackers. No meu ponto de vista essa “classificação” limita demasiadamente a discussão sobre os hackers.

Confundidos propositalmente, pelo pensamento conservador, com invasores de rede, hackers somos todos os que agimos para que informações, cultura e conhecimento circulem livremente. E esta ética de cooperação, pós-capitalista, vai transbordando do software livre para toda a sociedade.

Hernani Dimantas, Dalton Martins

Nesse ponto entramos na Cultura Hacker, aquilo que praticamos e vivenciamos no dia a dia. Esta cultura teve origem na busca incansável por aprendizado e entendimento da relação dos computadores com as pessoas, e como essa relação poderia afetar o mundo, até mesmo o nosso mundo particular. O principio da cultura hacker e sua filosofia originaram-se no Instituto de Tecnologia de Massachusetts como apresentado no início desta postagem. Uma cultura de certa forma acaba tendo um “modus operandi” e uma filosofia essencial embutida em suas práticas e comportamento, nascendo daí uma ética. No caso dos hackers foi atribuído o termo Ética Hacker pelo jornalista Steven Levy, descrito em seu livro Hackers: Heroes of the Computer Revolution publicado em 1984 e neste vídeo. O ponto chave da ética é o livre acesso a informação e melhoria da qualidade de vida. Alguns princípios já tinham sido descritos em 1974 por Theodor Nelson, mas aparentemente foi Levy o primeiro a documentar a filosofia e seus fundadores. Estes princípios foram os primeiros a serem debatidos, mas ainda até hoje vem sendo discutidos, rebatidos, afirmados, reafirmados, comparados, enfim, está em constante evolução, pois a essência é o ser humano, que chega a ser “subjetivo”, e não a máquina.

Os 7 princípios descritos por Levy:

  • O acesso aos computadores deve ser total e ilimitado;
  • Toda a informação deve ser livre e utilizada por qualquer pessoa;
  • Todo o hacker tem o dever de partilhar o seu conhecimento com a comunidade e fora dela;
  • As economias devem ser descentralizadas e as autoridades devem ser desacreditadas;
  • Os hackers devem ser julgados pelas suas capacidade de hacking e não por qualquer outro tipo de critérios discriminatórios;
  • Pode criar-se arte e beleza através de um computador;
  • Os computadores podem mudar a vida para melhor.

A Cultura Hacker transcendeu e vai para muito além da semântica. Não fica restrita apenas ao ambiente da tecnologia ou dos computadores. Posso arriscar que tudo que envolve busca do conhecimento para entender o propósito de algo e depois modificar e/ou melhorar para aplicá-lo, buscando um resultado melhor, seja com perspectivas pessoais ou coletivas é um hack, portanto quem o faz é um hacker.

Uma postagem feita pelo Jomar Silva em 2009 chamada “Sou um hacker e me orgulho muito disso!” foi um desabafo e uma crítica à má utilização do termo Hacker na época, principalmente pela mídia, mostrando-o de forma muito negativa. Este texto me marcou bastante, pois veio de encontro com meu incômodo pela má utilização e essa disseminação negativa, apelando sempre para o sensacionalismo “hollywoodiano”. As notícias deveriam ser apresentadas com os termos apropriados, ou seja, quem cometeu os crimes eram crackers e pronto. Mas nosso jornalismo tá pecando muito antes de passar a informação. A prova disso dentre outras é o caso da “Menina do Vale do Silício”.

Abaixo listei alguns e algumas Hackers que considero importantes para história do mundo e do Brasil. Alguns deles também foram mencionados no livro do Levy, mas na minha opinião existem muitos outros que por questões cronológicas ou foco estritamente computacional ficaram de fora. Esses homens e mulheres desenvolveram tecnologias ao seu modo e em sua época para melhorar a sociedade ao qual estavam inseridos.

Zumbi dos Palmares, considerado um dos grandes líderes da história brasileira de resistência e luta contra a escravidão, lutou pela liberdade de culto, religião e prática da cultura africana no Brasil Colonial.

Ada Lovelace, matemática e escritora inglesa, reconhecida principalmente por ter escrito o primeiro algoritmo para ser processado por uma máquina, a máquina analítica de Charles Babbage.

Alan Turing (um dos mais notáveis), foi um matemático, lógico, criptoanalista e cientista da computação britânico. Foi influente no desenvolvimento da ciência da computação e na formalização do conceito de algoritmo e computação com a máquina de Turing, desempenhando um papel importante na criação do computador moderno. Ele também é pioneiro na inteligência artificial e na ciência da computação.

Grace Hopper, analista de sistemas e Almirante da Marinha dos Estados Unidos, criadora da linguagem de programação Flow-Matic, hoje extinta, mas que serviu como base para a criação do COBOL. Ela também foi uma das primeiras programadoras do Harvard Mark I.

Lois Haibt, cientista da computação estadunidense, sido a única mulher membro da equipe de dez pessoas na IBM que desenvolveram o Fortran, a primeira linguagem de programação de alto nível.

Albert Einstein, físico teórico alemão, desenvolvedor da teoria da relatividade geral, ao lado da mecânica quântica um dos dois pilares da física moderna

John McCarthy, criador da primeira turma de programação do MIT em 1959 que deu origem ao curso de ciência da computação.

Stephen Wozniak (Woz), um dos maiores entusiastas e contribuintes da computação pessoal, criador do Apple 1, mas sua história não se resume apenas na Apple e possui muitos outros feitos em sua jornada.

Bob Marsh, desenhista das primeiras placas de memória utilizadas no Altair 8000.

Harry Garland e Roger Melen, ambos professores da Universidade de Stanford que criaram a empresa Cromemco, responsável pela criação da primeira placa gráfica comercial (Dazzler).

Marty Spergel, desenvolvedor de um dos primeiros modems comerciais.

Vinton Cerf, matemático e informático estadunidense referenciado como um dos fundadores da Internet.

Dennis Ritchie, cientista da computação estadunidense criador da linguagem de programação C e co-inventor juntamente com Ken Thompson do sistema operacional UNIX.

Brian Kernighan, cientista da computação canadense contribuidor das linguagens de programação AWK e AMPL, além de co-autor do primeiro livro sobre a linguagem C.

Ken Thompson, cientista da computação estadunidense co-invetor do sistema operacional UNIX juntamente com Dennis Ritchie e criador da codificação UTF-8.

Tim Berners Lee, cientista da computação britânico, professor do MIT criador da Rede Mundial de Computadores (WWW) e diretor da W3C (World Wide Web Consortium)

Richard Stallmman, programador estadunidense criador do emacs, GNU Compiler Collection e o GNU Debugger, além de ativista, fundador do movimento software livre, do projeto GNU, e da FSF (Free Software Foundation).

Eric Raymond, escritor estadunidense com livros publicados como A Catedral e o Bazar e contrbuidor do projeto de código aberto e software de código aberto desde 1982.

Andrew Tanenbaum, professor e escritor de diversos livros técnicos além de criador do Minix, um tipo de UNIX utilizado para aprendizado universitário.

Linus Torvalds, estudante finlandês na época da Universidade de Helsink, criador do Kernel Linux, que utilizou o Minix como base de aprendizado. Atualmente é o mantenedor e responsável pelo Kernel Linux.

Aaron Swartz, jovem e notável programador estadunidense, escritor, articulador político e ativista na Internet, co-autor do RSS e criador do Reddit. Suicidou-se por pressão do governo americano e do MIT.

Lawrence Lessig, escritor norte-americano, professor na faculdade de direito de Harvard e um dos fundadores do Creative Commons e um dos maiores defensores da Internet livre

Julian Assange, jornalista, escritor e ciberativista australiano, criador do WikiLeaks.

Edward Snowden, analista de sistemas norte-americano, ex-administrador de sistemas da CIA e ex-contratado da NSA que tornou públicos detalhes de vários programas que constituem o sistema de vigilância global da NSA americana.

Peter Sunde, especialista em computação e político sueco, co-fundador e porta-voz do The Pirate Bay. Concorreu à uma vaga no Parlamento Europeu em 2014 pelo Partido Pirata da Finlândia.

Niv Sardi, especialista em computação argentino co-criador do Popcorn Time e criador do Butter Project.

Enfim muitos e muitos outros hackers conhecidos e desconhecidos fizeram história e causaram alguma mudança na sociedade, sendo geralmente para melhor. Temos inúmeros hackers e personalidades brasileiras que contribuíram e contribuem muito para o desenvolvimento nacional. Eu tenho orgulho de conhecer vários deles e não cito aqui no momento para não cometer a injustiça de faltar alguém.

Em outra postagem vou falar sobre o que vem a ser um Hacker Space.

Artigo interessante sobre a transversalidade da Cultura Hacker

REDES COLABORATIVAS, ÉTICA HACKER E EDUCAÇÃO

RESUMO:O texto discute as transformações do mundo contemporâneo a partir da presença intensa de tecnologias digitais de informação e comunicação. Analisa o que denominamos de labirinto espaço-temporal, constituidor da hipertextualidade do mundo contemporâneo. Parte da compreensão das tecnologias digitais para discutir as novas linguagens e a sua apropriação pela juventude. Analisa a produção do conhecimento em função do movimento global de produção colaborativa de conhecimento livre com base na denominada ética hacker para, pensar a educação numa perspectiva colaborativa. Destaca o papel da cultura digital enquanto espaço aberto no qual os novos modos de relacionamento e de intercâmbio de culturas promovem, potencialmente, novas possibilidades de produção de conhecimentos e culturas. Propõe ao final, considerar a educação com base na pluralidade construindo novas educações.

Palavras-chave: Conhecimento Livre; P2P; Ética Hacker; Educação; Produção Colaborativa.

 

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Author: Rogério Fernandes Pereira

Profissional com 28 anos de experiência em Tecnologia da Informação e Comunicação com acúmulo de grande experiência em diversas áreas relacionadas, como a programação, editoração gráfica eletrônica, gestão, docência, pesquisa e infraestrutura. Os trabalhos desenvolvidos nesses anos de carreira nas diversas empresas de porte pequeno, médio e grande, contribuíram para aprimoramento ou desenvolvimento de novas políticas, serviços ou produtos gerando economia de recursos ou maximizando retorno econômico, por meio da modernização dos processos de TI e infraestrutura. Ativista do Software e Conhecimento Livre é membro oficial da Comunidade GNU Health Internacional.

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